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Uma nova perspectiva do transtorno bipolar e suas relações

Escrito por Daniela Cracel.

Muitas pessoas vêm me pedindo para escrever sobre o que é exatamente esse transtorno Bipolar, e como é conviver com os familiares que possuem esse diagnóstico.

Tarefa fácil? Não é definitivamente. Mas, quem disse que se relacionar é fácil?

Relacionar-se requer muita disponibilidade para o outro. E como se relacionar quando nem você tem essa disponibilidade para você?

Começaremos em partes o que seria um transtorno bipolar? Como falado aqui no blog anteriormente, transtorno bipolar é caracterizado por mudanças de humor de um grau de mania alto, onde nesta fase as pessoas se acham super heróis, e oscilam para um humor mais deprimido.

Esse humor falado na psicologia, não é aquele conhecido, como por exemplo, estou de mau humor hoje. É um grau diferente.

Essas pessoas que possuem TB. apresentam um grau de irritabilidade grande, possuem muita energia, quando estão no episódio de mania. São pessoas que acabam se envolvendo com problemas financeiros, e também muitas vezes se envolvem com aventuras sexuais, onde depois podem se sentir arrependidas. Essas pessoas podem dormir menos que o normal e podem sonhar com grandes planos que nunca poderão ser realizados. Elas podem apresentar pensamentos que estão fora de sintonia com a realidade, que são alguns sintomas psicóticos como crenças falsas e falsas percepções. Durante o episódio maníaco algumas pessoas podem apresentar problemas com a lei.

Quando está no outro oposto, no episódio depressivo, sentem-se sem energia, sem vontade, podem ter aumento de apetite ou diminuição, irritabilidade, ganhar ou perder peso, dormir mais ou menos que o normal, pode parecer lento ou agitado, sentir-se inútil ou culpado, e dificuldade de concentração, indecisão, e podem apresentar ideação suicida.

Se uma pessoa apresenta sintomas mais leves de mania e não tem sintomas psicóticos, é chamado de “hipomania” ou um episódio hipomaníaco.

Transtorno Bipolar I é a forma clássica em que uma pessoa apresenta pelo menos um episódio maníaco.

No transtorno bipolar II, a pessoa nunca teve um episódio maníaco, mas teve pelo menos um episódio de hipomania e pelo menos um período de depressão grave.

Um transtorno que é classificado separadamente, mas está intimamente relacionado com o transtorno bipolar, é ciclotimia. Pessoas com esse transtorno oscilam entre hipomania e depressão leve ou moderada, sem nunca desenvolver uma mania plena ou episódio depressivo.

Algumas pessoas com transtorno bipolar mudam frequentemente ou rapidamente entre sintomas maníacos e depressivos, um padrão que é frequentemente chamado de “ciclo rápido”.
Muitos psicólogos não enxergam esse TB como um distúrbio, e sim um ir e vir de energias sem uma homeostase completa.

Pensar nesta hipótese dar um fluir maior nas possibilidades dessa pessoa que possui esse quadro, e que vem assustando muito nossos clientes atualmente.

Costumo conversar com os meus clientes que essa questão de nomear o transtorno como algo fica para nós profissionais da área. Pra que te serve saber se tem ou não tal síndrome?

Muitas vezes percebo pessoas usando estes rótulos para empacarem na vida, e isso é algo que não queremos até mesmo por que se relacionar é crescer. Lógico que sabemos também da importância de saber como os transtornos funcionam, para poder ajudar o cliente a ter uma visão sobre o seu quadro e das suas possibilidades.

Nessa dúbia informação dos profissionais da psicologia, costumo olhar para as duas com muito carinho, até mesmo porque lidamos com vidas humanas. No consultório costumo falar claramente quando a pessoa já chega com o diagnóstico fechado, e de forma a desmistificar a problemática envolvida. E quando não vem com o diagnóstico fechado costumo falar dele, mas não rotulando e sim olhando para as características que ali estão envolvidas.

E pensando sobre isso que falo com clareza a você que está numa relação com uma pessoa que apresenta essa problemática, você não está se relacionando com o transtorno bipolar, e sim com uma pessoa com muitas possibilidades, e que possui uma alma. E como falado acima, se relacionar não é tarefa simples, é uma grande arte que não tem certo e errado. Na relação vamos encontrar o que funciona e não funciona para você e para o outro.

Entender o que é e como o TB pode dificultar a relação, é exatamente olhar para aquela pessoa com suas características e enxergar o que você pode e não pode tolerar, e conversar sobre o que um pode e não pode lidar. Saber sim que você vai passear por águas nunca antes conhecidas por você, e que pode te assustar. O que é certo é que você vai muitas vezes perceber o que é mais estável na pessoa é a sua instabilidade. E você precisa saber claramente se quer ou não se “jogar” nessas águas, de forma a crescer junto e não a se perder de si e do outro. Pois, pode ser muito convidativo o se misturar com o outro. E aí você não a ajuda e nem a si mesma.

Aprender como o outro funciona ajuda no lidar com essa pessoa e ela a lidar com você. Como num jogo de frescobol que você joga a bola para o outro no intuito dele conseguir segurar a bola. E é isso que acontece em relações funcionais. Uma atacada de bola certeira ajudando a ele ou a você, a segurar aquela bola, e se estiver muito difícil peça socorro ao outro.

Olhar para o outro e se disponibilizar pra ele não é fácil, é uma realidade difícil e muito enriquecedora, quando se quer entrar nesse barco de mãos dadas, e não tentando fazer tudo para derrubar o outro nesse barco.
Para que isto ocorra você e ele precisam querer, “só uma andorinha não basta para fazer o verão”.
Cabe também lembrarmos que para termos um quadro no fluir funcional dessa família, ou do casal é de extrema importância a dobradinha entre psicologia e psiquiatria.

4 Comments

  • Paulo Emanuel Doro Pereira

    Muito apropriada esta abordagem. Também sou psicólogo, atualmente não exercendo a profissão, mas creio que o caminho para a “cura” dos portadores desta distúrbio passa por esta visão da pessoa, mais que do distúrbio.
    Tal postura de rotulação das pessoas afasta-as como se fosse uma peste, enquanto a percepção da pessoa como sujeito, abre perspectivas mais criadoras e relacionais.

  • rabinah

    Sou médica, e igualmente aprovo sua postura principalmente por não estigmatizar o paciente. Muitas vezes, o portador da síndrome, com dose medicamentosa correta(lítio) e com o apoio da família, pode positivamente conviver e ainda ser produtivo. O problema é quando além de não seguirem o tratamento são expostos ao abandono familiar e ainda a rejeição social. Parabéns pelo texto.

  • Gislene

    Sou paciente… me sinto rotulada. Achei interessante suas palavras quanto ver a pessoa com outras possibilidades. Estou fazendo terapia também. Muito grata pelo seu texto…vou buscar valorizar minhas características. É um dia de cada vez, quando não durmo, leio ou escrevo. É útil e me sinto bem

  • Wilmara

    Paciente, diagnosticada desde 2005 e de lá pra cá foram vários episódios de surto… já subi até no telhado! Hoje me sinto como a Fênix, que diferente dela, tem que ressurgir das cinzas todos os dias. Gostei muito do seu texto é animador, me faz lembrar que independente de qualquer tipo de doença mental ou física somos humanos e as regras da boa convivência será sempre as mesmas para todos e o mais importante é estar perto de quem nos ama de verdade, esse remédio nenhuma farmácia vende!

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